02 março 2017

Memórias 02 - A Besta Solta Na Sala



Faria Lemos tinha apenas duas ruas e uma praça, nem sequer chegava a ser uma praça, antes era um espaço coberto por oitizeiros. Os mais doces oitis que já provei na vida. Mas mesmo minúscula era ramal de trens da Leopoldina e isso lhe dava ares comerciais.
Mesmo com apenas duas ruas e sendo ainda um Distrito ainda assim possuía um grupo escolar, um clube, uma padaria, uma loja de tecidos, uma farmácia, uma loja maçônica, e uma fábrica de queijos, servindo como entreposto leiteiro para toda a região.
Nenhuma de suas casas eram suntuosas, antes modestas. As ruas não eram calçadas e a segurança era total, ainda que ameaçada pela rivalidade política e os tiroteios entre as facções do PSD e UDN, eterna briga na região do Contestado mineiro onde Faria Lemnos está situada.
Tirando os momentos eleitorais a segurança era total: as portas das casas estavam sempre escancaradas. E nesse escancaro era comum bois e vacas entrando pela sala à dentro para meu terror aos 4 anos de idade.
Uma vaca perdida no centro da sala de jantar esbarrando na mesa, derrubando bancos e sendo enxotada de um lado para outro, batendo com os cascos no assoalho mais apavorada que furiosa.
A vaca e eu apavorados. Olhos esbugalhados. Uma besta solta no que deveria ser meu refúgio, meu lar.
Talvez a mesma vaca que dias depois vi passar tragada pela enxurrada devastadora que carregava tudo que encontrava à sua frente quando a tromba d’água desabava sobre a cidade.
Passou rápida pela rua. Da cor da enxurrada barrenta, os olhos suplicantes pedindo que alguém parasse o caudal.
A força das águas era maior que a sua força animal.
As águas e a vaca: o líquido amniótico e a mãe. Talvez um hindu visse assim.

Eu não, era apenas um mineirinho assustado, agradecendo às águas por levarem a besta para bem longe.

01 março 2017

E A Mangueira, O Que Foi Aquilo?




Gosto muito de carnaval, integro-me à loucura deste reinado momesco e compreendo seu surrealismo.
Mas confesso que fiquei sem entender  a apresentação da Mangueira no sambódromo nesta segunda feira passada.
Era um desfile de imagens de santos católicos, de origem europeia – nosso samba é de origem africana vale lembrar -  frutos de um Igreja repressora, castradora,  e com histórico de perseguições e rituais solenes.
Não entendi. Não dá pra ser profano e brincar debaixo de uma gigantesca estátua da Senhora de Aparecida. E até mesmo debaixo de um Jesus na hora agonizante da sua morte.
A Igreja Católica que em carnavais anteriores proibia o uso de suas imagens desta vez parece que embarcou na onda.
E pra completar,  do meio do desfile em diante entra a Umbanda, e no finalzinho o Camdonblé.
Ficou muito estranho, me pareceu uma forçação de barra e um despropósito, uma inoportunidade aquelas imagens católicas na Avenida.

Mas...o mundo muda. Sei lá. Sei lá...não sei.

27 fevereiro 2017

Entre o Carnaval e a Luta




A diferença entre a luta e o carnaval é que para as massas a luta se faz por necessidade, e o carnaval por prazer. 
Pra quem ainda não entendeu porque o povão vai pras ruas no carnaval e não vai em massa defender seus direitos: o prazer está diretamente ligado ao inconsciente, ao desejo. E a luta,  ligada ao dever, ao consciente. 
Para o inconsciente satisfazer-se basta realizar o desejante, basta o desejo. 
Para a luta o dever vem antes do desejo. Lutar exige o consciente e não o inconsciente. 

Quando Acreditei Que Podia Voar






Faria Lemos é esta pequena cidade que vocês veem na foto acima. Fica na Zona da Mata de Minas Gerais. Quando nasci, em 1947, era distrito de Carangola. Hoje é município emancipado. 

Nasci em Carangola porque sequer havia hospital em Faria Lemos. Minha cidade natal  mesmo seria Faria lemos. Fariofá como a chamam os mineiros.
Meus pais, cariocas, tinham ido para lá envolvidos em fabricação de queijos.
Meu pai era queijeiro, maçom, e uma liderança local: vereador em Carangola pelo PSD da época.

Com este perfil promoviam bailes de carnaval no clube de Faria Lemos. Vem daí minha atração e gosto pelos festejos carnavalescos.
O clube ficava no segundo andar de uma construção. Uma escada nos levava até o salão.

Foi num destes anos que minha mãe resolveu me fantasiar de Super Homem e o babaquinha aqui, então com 4 anos,  achou que com aquela capa podia voar.
A certo instante do baile projetei-me escada abaixo certo que poderia planar. 
A Divina Providência providenciou para que não me ferisse seriamente ao me esborrachar lá embaixo depois de ter rolado muito bem por uns trinta degraus.
Aquilo talvez tenha sido minha primeira quebra de fantasia, das muitas outras que viria a quebrar durante a vida.


Segue o Baile.

26 fevereiro 2017

Jucá e a Suruba do Governo



                                                                     Prestes, o Cavaleiro da Esperança

Mas essa tal suruba de que falou o nobilérrimo Romero Jucá deixou os velhinhos do governo em petição de miséria, Serra deu jeito na coluna, Padilha vai ter que tirar a próstata, Eunício também está mal...suruba é coisa pra jovens, não é coisa para velhos arcaicos.


Ao tocar no assunto lembro-me de quando Prestes retornou ao Brasil depois do exílio e nós do PCB estávamos tentando modernizar o Partido e discutir os temas que hoje fazem parte da pauta progressista, aí tivemos um encontro com ele  e no encontro foi-lhe perguntado se alguma vez ele havia feito suruba.
Aos 80 anos Prestes não sabia o que era suruba. Teve que ser salvo pela informação dos membros da mesa.

Lutou tanto que nem teve tempo para orgias. Já o Jucá...

Jucá o Cavaleiro da Suruba

25 fevereiro 2017

Já foi Meu Tempo de Carnaval



                                                 Magro, jovem, e muito doido no Carnaval de 1981

Não estou brincando carnaval. Já brinquei muito, desde criança. Minha mãe e meu pai organizavam bailes na cidade de Faria Lemos, onde morávamos no interior de Minas. Depois no Rio, ainda criança sempre era levado por meu pai para o Centro da Cidade. Jovem pulei muito nos blocos da Ilha do Governador e nos blocos de sujo do Rio.
Ainda jovem na Bahia criei o Bloco e a Banda Mel, Os Bailes de Oxum e Gala Gay.
Na maturidade fui por década jurado da Liga das Escolas de Samba do Rio.
Até que cansei, Deu pra mim.

Agora fico em casa e aproveito estes dias para descansar.

05 dezembro 2016

Quanto Mais Atacam lula Mais Ele Vira História





Estive num evento com Lula aqui no Rio de Janeiro. Ouvi seu relato de que nunca , nunca vejam bem, teve da imprensa em todos estes anos uma linha sequer de elogio ou de reconhecimento do seu trabalho. Ao contrário, sempre críticas e noticias ruins e sensacionalistas. Soma-se a isto os processos e inquérito a que é submetido  há anos com ampla divulgação deles como se condenado já o fosse; e mais as divulgações e suas conversas provadas,; e mais os ataques diários nas redes, nas ruas, nas manifestações...e fico imaginando que é preciso ter muito bom ego, muito boa autoestima para continuar enfrentando com galhardia tudo isso. Getúlio meteu uma bala na cabeça; Jango entrou em depressão. Lula prossegue e cada vez mais atilado.

Tiro por mim, e sei o quanto sou atacado diariamente nas redes sociais que mantenho, como este blog, o canal do youtube, a fanpage...etc. Os ataques tem um único objetivo: atacar sua autoestima, reduzir sua capacidade de luta e sua ideologia. Mas Lula é exemplo para mim.

E digo a vocês que a melhor defesa para estes ataques é não ter o ego inflado, é manter a humildade e a compreensão da finitude da vida.


Tudo passa. Tudo vira histórias, e para alguns, como Lula, História.

02 dezembro 2016

Fogo no Puteiro




O Pais está a Casa da Mãe Joana, a depressão atinge não só a esquerda , mas também setores da Direita. O caos instalado. Briga entre Judiciário e Congresso, entre juízes do Supremo, entre membros do Governo Federal, Deputados votando anistia para seus crimes, Senadores querendo fugir dos crimes e condenando juízes,  desemprego aumentando, PIB caindo cada vez mais, os estados falidos, a insegurança pública crescendo, a violência policial, o Estado de exceção, aviões caindo, times morrendo, Janaína enlouquecendo ainda mais  e Bicudo condenando o Temer que ele mesmo  pôs lá, MInistros caindo um após o outro,  Dalagnol dizendo que Dilma fez mais pelo combate à corrupção, promotores ameaçando renunciar se a Lei não agradar a eles, o PT uma torre de Babel, a carestia aumentando,a Bolsa despencando, o dólar subindo, os salários aviltados, a corrupção campeia em todos os níveis ainda, e muito , muito mais horrores neste omento do Brasil.
Como não ficar deprimido? Como manter a autoestima e o bom humor? Só com uma certa, e grande, dose de loucura e indiferença.

22 novembro 2016

Como Está Sendo a Temporada de Comédias no Rio Este Ano



Estamos chegando ao fim do ano. Assisti a dezenas de comédias durante o ano. Umas me agradaram, outra não. Mas há uma característica que é comum a quase todas: a falta de unidade.

Eu explico: há comedias onde atores estão ótimos, mas a direção é frasca e os atores se viram para dar o melhor de si. Há comédias que são o contrário: excelente projeto de direção e os atores não o cumprem. Há comédias em que o texto é menor que o talento dos atores, e há comédias em que o talento dos atores é menor que o texto. Há comédias em que figurinos, cenários e trilha são bons, e direção e elenco não chegam aos pés.

Enfim, o que quero flagrar é que com raras exceções há um senso quase esquizofrênico nas montagens cômicas este ano de 2016.

Quase não se consegue o todo harmonioso que torna uma comédia uma obra inspirada.
Mas;... o ano ainda não acabou e há muitas comédias ainda pela frente,
Divirta-mo-nos.

20 novembro 2016

Insegurança e Preconceito

                        Ah, Cidade da Bahia, do alto do Elevador o preconceito te contempla


Minha mulher estava em Salvador, entrou numa lanchonete com nossos dois netos. Em seguida entraram dois jovens adolescentes e sentaram-se em outra mesa. Vale dizer que eram negros.
Imediatamente, o segurança, também negro, veio retirar os dois jovens da lanchonete.
Eles não haviam sequer feito um pedido.
Minha mulher questionou o segurança:

- Porque o senhor está fazendo isso? Porque está tirando eles daqui?
- Porque eles entram aqui e podem roubar as pessoas.
- Mas eles não roubaram ninguém, não fizeram nada, apenas sentaram...eles têm direito de entrar aqui, o senhor não pode fazer isso. Como o senhor pode dizer que são criminosos?
- Eles são todos iguais. Disse o segurança.

Um dos jovens, constrangido, abriu sua mochila e mostrava ao segurança:
- Olha aqui moço, não tem nada roubado aqui. É tudo meu, coisas da escola, coisas pessoais.

Não adiantou. As pessoas nas outras mesas faziam de conta que os dois jovens eram invisíveis e que aquela cena não estava ocorrendo.
A violência do silêncio e da omissão delas é tão forte, ou mais até, que um furto de um pivete de rua.
Minha mulher rendeu-se àquela cena de violência para evitar que ela própria entrasse em conflito de violência maior com o segurança da lanchonete.
Os jovens foram retirados da lanchonete. Não sabemos até hoje se eles queriam apenas tomar um sorvete, ou descansar um pouco sentados ali.
Não roubaram ninguém, não agrediram, não foram violentos. Ao contrário: sofreram a violência diária destinada aos que “são todos iguais”.